Sunday, March 09, 2008

A MOÇA NO RESTAURANTE JAPONÊS


Estava sentada na mesa em frente e chamava a atenção, em primeiro lugar, porque era a única, com traços ocidentais, dentre os demais que eram de ascendência oriental; depois, pela característica singular de seus grandes olhos negros.

Ocupava uma mesa redonda, ladeada por duas crianças, e, a completar o círculo, pelo lado esquerdo dela, havia uma moça, que aprentava uma idade próxima da sua; em seguida, uma senhora, cujos cabelos brancos e ombros curvados revelavam uma idade já avançada; e, finalmente, um homem, que talvez fosse o marido da nossa personagem.

Seus olhos assemelhavam-se a dois faróis, vistos de longe. Porém, não eram faróis que emitem luz própria, nem faróis apagados, mas, ao contrário, eram brilhantes e, além de captarem a luz exterior, absorviam , com intensidade e ansiosa curiosidade, tudo aquilo que estava à sua volta. Expressavam automaticamente todas as reações que, as imagens captadas, lhe provocavam: ora eram sorridentes, ora, olhar de admiração; às vezes manifestavam inquietude, outras, preocupação; mais além, eram indagadores e curiosos. E tudo isso era demonstrado por rápidos movimentos, acompanhados de meneios com a cabeça, realizados à mercê do estímulo que esta ou aquela situação lhe causava. Em certos momentos, que se repetiam com freqüência, arregalava-os, ligeiramente, transmitindo, com isso, uma leve e ligeira perturbação.

Ao perceber, que estava sendo observada, escondeu-os atrás de um par de óculos escuros.



Thursday, February 28, 2008

PARATY

Ao adentar o centro histórico, nos idos dos anos 70, do século XX, sentiu-se reconfortado por ver tudo aquilo, razoavelmente preservado.
Os casarões, as igrejas e as ruas com seus pisos seculares tornavam vivo, na memória, o apogeu da Vila de Nossa Senhora dos Remédios de Paraty, cujo porto era o local, por onde a metrópole, como vampiro, sugava o ouro da colônia.
Imaginou o burburinho da época: o tráfico do ouro e das pedras preciosas, o quinto, a sonegação, os exploradores, os escravizados e os miseráveis. Todos, circulando por aqueles becos e ruas. Pensou nas paixões ali ocorridas, nos amores não correspondidos e nas esperanças frustradas.
Lamentou o descuido com os lugares históricos, que já conhecia em Ouro Preto, ante a construção de um hotel em pleno centro histórico, cujo projeto era atribuído a Niemeyer.
Emocionado, sentou-se à mesa de um bar, no Largo da Matriz. Vislumbrou a cidade no seu movimento contemporâneo e bebeu um largo trago de parati.